Wednesday, 18 May 2011

A peleja da Mulher Melancia com o Bispo Macedo em Moçambique




O Sociólogo Marílio Wane, membro da Associação Moçambicana de Sociologia (A.M.S), apresenta-nos mais uma reflexão interessante. Desta feita, trata-se da sua interessante análise  da relação Brasil – África. Uma relação ‘nada inocente se não fossem os interesses económicos do Brasil em relação ao continente africano e em especial os países de língua portuguesa’ Este texto é reproduzido com a devida vénia do Pambazuka News.

Este texto de Marílio Wane traz aos nossos leitores uma indagação interessante e nada inocente se não fossem os interesses econômicos do Brasil em relação ao continente africano e em especial os países de língua portuguesa. Afinal de contas, qual a relação entre a mulher melancia e o Bispo Macedo? Vejamos na leitura do texto como o sagrado e o profano se articulam dentro de um interesse multinacional brasileiro via uma grande rede de televisão.


No fim-de-semana de 12 e 13 de Março deste ano, a cidade de Maputo viveu um inusitado encontro entre o sagrado e o profano. Para animar a noite de sábado dos maputenses, a sensual Mulher Melancia apresentou-se no Coconuts, famosa casa de espectáculos da cidade, e no domingo, foi inaugurado o Cenáculo da Fé, o maior templo da Igreja Universal do Reino de Deus no continente africano. A princípio, os dois acontecimentos não teriam nenhuma relação um com o outro não fosse o fato de serem indicadores da massiva presença brasileira no cotidiano dos moçambicanos. Inclusive, a diferença de propósito existente entre os dois reflete a diversidade com que se manifesta essa mesma presença; se ao nível macro, já temos o grande capital brasileiro e acções de cooperação de Estado nas mais diversas áreas, este fim-de-semana nos deu ainda mais a dimensão microssocial, cotidiana, deste encontro de culturas.


Na dimensão do profano, a exibição da Mulher Melancia fazia parte das comemorações do carnaval na cidade, porém, deve se dizer que Maputo não tem uma tradição forte em relação a essa festa popular, sendo mais correto dizer que “carnaval” era muito mais uma forma de produzir um mote publicitário para atrair as pessoas. Aliás, a principal referência dessa festa para os moçambicanos é justamente a do Brasil, a que tem acesso através da televisão. Para os que não conhecem, “Mulher Melancia” é uma personagem representada pela dançarina brasileira Andressa Soares, cujo nome artístico é uma referência à sua bunda avantajada. Assim, a principal atração desta jovem é o apelo erótico explícito do seu show, tanto nas coreografias quanto nas letras das músicas, tendo sido bastante conhecida em seu país de origem pelo hit da “Dança do Créu”, lançado no verão de 2007/08.


Já na dimensão do sagrado, a inauguração de um templo de grandes dimensões da Igreja Universal do Reino de Deus só veio coroar a atuação incisiva desta instituição no país, a partir de fins da década de 1990. A solenidade do evento foi marcada pela missa ministrada pelo próprio Bispo Edir Macedo, fundador e principal líder da igreja, sendo depois recebido pelo Presidente da República, Armando Guebuza, em audiência oficial. Este fato, por si só dá mostras do prestígio de que a instituição goza entre as próprias autoridades moçambicanas, pretensamente por contribuir para o “desenvolvimento moral” da sociedade. Entretanto, o evento foi marcado por uma tragédia, pois duas pessoas morreram asfixiadas e outras quatro ficaram gravemente feridas devido à superlotação no templo. Segundo dados oficiais, havia 10 mil pessoas num espaço onde só caberiam 3 mil.


Deus e o Diabo no país da Marrabenta·

A presença de atrações como Mulher Melancia não é extatamente uma novidade para os maputenses. Ainda que não tenham havido muitas do gênero nos últimos tempos, em 2004, a “Tiazinha” – personagem encarnado pela “modelo e atriz” brasileira Suzana Alves – apresentou-se, também em meio às comemorações do carnaval. Assim como Andressa e seu personagem, Suzana também se valia da sensualidade como principal atrativo para o público, se bem que de forma bem menos explícita. No seu contexto originário, este tipo de atrações costuma dividir opiniões quanto ao seu suposto valor artístico. De um lado, há os que dizem que se trata de espetáculos apelativos de gosto duvidoso e não só, que significam um rebaixamento do papel da mulher na sociedade através da exploração comercial do(s) seu(s) corpo(s) e de outro lado, há os que apreciam o aspecto lúdico do erotismo e consideram como algo que não deve ser levado tão a sério.

No contexto de Moçambique, a princípio, as duas “cantarinas” provocam um choque cultural, não tanto por abordar a sensualidade ou o erotismo, dado que a música popular moçambicana contém esses elementos de sobra (tanto nas canções quanto nas danças). A diferença encontra-se na forma: o que atrai o público, jovem em sua maioria, e que certamente escandaliza os mais velhos, é a quase total nudez apresentada pelas cantarinas. A respeito disso, um dos poucos relatos e/ou resenhas “críticas” sobre a apresentação da Mulher Melancia foi feito por um brasileiro residente no país, em seu blog (blogdomoscou.blogspot.com), donde destaca-se esta passagem: “(...) ela queria fazer a segunda parte da apresentação de bikini, tipo tirar a roupitcha (sic) vermelha e dançar com o conjunto preto que estava por baixo, só que aki (sic) em Moçambique isto já é demais... o cara da organização, em off, censurou a idéia ainda durante a apresentação. Neste aspecto, acho que o Brasil esta avançado ‘até demais’”.

É justamente aí que se dá o choque cultural: apesar de o público moçambicano já estar habituado à nudez exaustivamente veiculada pela televisão brasileira neste tipo de atrações, a sua execução “ao vivo” abala sensivelmente os valores locais. Além do mais, o próprio blogueiro coloca outra questão muito importante em relação à sua própria cultura, qual seja, o tênue limite entre a liberalidade e a libertinagem. Questão essa que adquire novos contornos a partir do momento em que o Brasil exporta determinados valores que atentam contra o pudor em outras culturas. Aqui, há uma questão mais ampla sobre o impacto desta televisão no cotidiano local, que não se restringe só ao erotismo ou sensualidade explícitos. Muitos outros temas abordados na vasta programação a que se tem acesso, como por exemplo, a homossexualidade, a violência, as drogas, a corrupção, etc. Podem trazer distorções significativas quando “aplicados” ao contexto moçambicano. Importante frisar que trata-se de uma relação desigual, onde não há exatamente uma troca de informação entre os dois países, o que ajudaria numa melhor contextualização dos conteúdos veiculados.


Num primeiro momento, “sagrado” e “profano” são termos antitéticos e até mesmo opostos, o que no nosso caso em questão, nos leva a pensar que a vinda da Mulher Melancia nada tenha a ver com a inauguração de um templo religioso. Mas talvez seja melhor pensá-los como termos dialécticos, envolvidos numa relação em que a existência de um sugere a do outro. Esta perspectiva pode nos ajudar a pensar naquilo que os dois eventos têm em comum: ambos estão ligados à presença da televisão brasileira em Moçambique, dado que num caso como no outro, este veículo de comunicação foi fundamental para a divulgação dos dois fenómenos, ainda que com propósitos diferentes. Mulher Melancia tornou-se conhecida por via de programas de auditório (e outras fontes também, como a internet) e a Igreja Universal é ela própria dona da Rede Record de televisão, que em 1999 criou como uma filial moçambicana: a TV Miramar . Portanto, estamos diante de um fenômeno de pouco mais de uma década, que por sua vez, remete à abertura política, social e econômica que se deu a partir do início do década de 1990 em Moçambique.


Não se restringindo apenas ao nível macropolítico, esta abertura possui também uma dimensão cultural, se pensarmos que findo o regime socialista monopartidário (em 1992), os moçambicanos passaram a ter acesso a diferentes fontes de informação, para além daquilo que o controle estatal permitia. É justamente aí que se abre espaço para a entrada da Igreja Universal e os seus veículos de comunicação no país. Aliás, é bastante notória a sua ampla penetração em vários países pobres do mundo, certamente em função do seu discurso religioso que apela para as questões cotidianas mais imediatas. Diferentemente da retórica vazia do catolicismo actual, as correntes neopentecostais brasileiras conquistam grande número de fiéis muito em função da linguagem simples e pela promessa de alívio de problemas ligados à pobreza e à desigualdade social.


Porém, os “evangélicos” também são conhecidos em seu país de origem por atos sistemáticos de intolerância religiosa. Desde o famoso incidente do bispo Sérgio Von Helder que em 1995, chutou uma imagem de Nossa Senhora Aparecida em seu programa de televisão na TV Record (“O Despertar da Fé”) até as recentes perseguições a terreiros de candomblé em Salvador, este grupo – especialmente a IURD – tem sido visto com reserva e desconfiança por outros setores da sociedade. Deve-se sublinhar que parte do discurso religioso dos neopentecostais é claramente intolerante, particularmente em relação às religiões afro-brasileiras, o que torna bastante problemática a sua inserção em Moçambique. Há indicações de que essa mesma intolerância se reproduza localmente, em relação à espiritualidade e às religiões africanas, cujas práticas são desqualificadas como “coisas do Diabo”.


Que África é essa?


Paralelamente às questões propriamente religiosas, a atuação da Igreja Universal tem um grande impacto no país devido à grande audiência dos programas do seu canal televisivo. Entretanto, em relação a este episódio em particular, há um dado significativo a considerar; o canal Record News” veiculou uma reportagem bastante positiva sobre a inauguração do templo, inclusive, destacando a audiência do Bispo Macedo com o Presidente da República. E... nenhuma palavra sobre as mortes! Tendo em conta que tratava-se da mesma versão do noticiário exibida no Brasil, dois aspectos chamam a atenção: a despeito da sua longa presença em Moçambique, este foi um dos raros momentos em que a emissora fez uma reportagem sobre o país (com quem tem relações históricas importantes). O outro aspecto inquietante é mais óbvio, mas não custa colocar a pergunta: porquê a emissora não noticiou as mortes? Dada as enormes distorções produzidas pela mídia global em relação ao continente africano, a existência de meios de comunicação in loco – particularmente brasileiros – poderia contribuir para maior troca de informações. Mas não é o que se verifica.


Há um outro “detalhe” não menos importante: na internet, que neste caso, funciona como uma fonte alternativa de informação, a notícia das mortes foi dada pelo site globo.com, da Rede Globo, não por acaso, a principal concorrente da Rede Record. Assim foi apresentada a notícia: “Fiéis morrem em inauguração de templo na África”. Na “África”? Qual é a dificuldade de se dizer que o tal fato ocorreu em “Moçambique”? Este detalhe, aparentemente irrelevante, está na base de toda uma construção ideológica que produz e reproduz desconhecimento sobre a realidade do continente; é justamente esta generalização sistemática que reduz a enorme complexidade das experiências sociais, políticas e culturais africanas. O que vai na contramão das reivindicações do(s) movimento(s) negro(s) brasileiros que, dentre outras conquistas, conseguiram recentemente a introdução do ensino de História da África no currículo escolar oficial .


Este aspecto diz muito sobre o tipo de diálogo que o Brasil pretende estabelecer com países africanos. É certo que colocar o debate dessa forma é inadequado, uma vez que não há uma uniformidade nessa presença do “Brasil”, particularmente em Moçambique. Mestres de capoeira, pastores evangélicos, intelectuais, artistas, grandes empresários, políticos, etc. representam diferentes setores da sociedade que não necessariamente compartilham das mesmas visões de mundo e nem tem a mesma proposta de interação social. Entretanto, a força dos meios de comunicação de massa – muitas vezes ligados a interesses do status quo - acaba por difundir percepções problemáticas sobre a realidade, de ambos os lados. Daí que Carlos Moore (2008), intelectual pan-africanista cubano, defende que este diálogo entre culturas deve se desenvolver privilegiadamente entre a sociedade civil - brasileira e africana(s) – sob paradigmas para além daqueles já existentes nas relações entre o Estado e o grande empresariado.

O Juízo Final


Enfim, pelo que consta, Mulher Melancia e Bispo Macedo não se encontraram, mas diariamente dividem o espaço televisivo que adentra os lares moçambicanos, cada qual à sua maneira. Independente disso, as forças sobrenaturais trataram de separá-los: por volta das 10 horas da manhã de domingo, um forte temporal se abateu sobre a cidade de Maputo e parou justamente em momentos antes da inauguração do tal Cenáculo da Fé. Há quem diga que os Deuses fizeram descer as águas para lavar a “profanação” da noite anterior e abrir caminho para a manifestação do “sagrado” no dia seguinte. Com o sacrifício de duas almas...


Referência bibliográfica

MOORE, Carlos. A África que incomoda: sobre a problematização do legado africano no quotidiano brasileiro. Belo Horizonte: Nandyala, 2008, pp. 59-60.

Monday, 16 May 2011

Prezados Membros da Associação Moçambicana de Sociologia (A.M.S)

É com enorme satisfação que vos escrevemos para informar que desde Março de 2011 passamos a ser membros regulares da Associação Internacional de Sociologia (ISA). Como sabeis, havíamos sido admitidos como membros interinos até que os procedimentos legais da nossa inscrição efectiva fossem concluídos. Em meu nome pessoal e do colectivo de direcção da A.M.S endereço os meus parabéns à todos os membros da A.M.S/ISA. Através do hiperligação da ISA (http://www.isa-sociology.org/colmemb/) poderão ter acesso ao blogue da A.M.S. Brevemente a A.M.S vai criar a sua página Web (website), Boletim informativo electrónico e muito possivelmente a sua primeira revista científica, a Revista Moçambicana de Sociologia (RMS).
Saudações
Patrício Langa
O Presidente da A.M.S

Monday, 4 April 2011

Ferramentas de Sociologia [7]- FIM.

A direcção da A.M.S em colaboração com o sociólogo Elísio Macamo (que devia ser de leitura obrigatória para quem quer abraçar esta área do saber) vai criar um espaço de debate em torno de alguns conceitos fundamentais da sociologia. Este espaço será dedicado especialmente aos estudantes de sociologia, que podem ser desde pessoas inscritas em cursos de sociologia, docentes, pesquisadores, até leigos. Todo aquele que se interessa pela sociologia enquanto disciplina, ciência e/ou campo de lazer poderá participar no debate. O espaço designa-se “Ferramentas de Sociologia”. Semanalmente iremos postar no blog da A.M.S um texto para reflexão. Todos estão, portanto, convidados a debater. Repetimos, não precisa ser especialista ou ostentar algum grau académico”.
Esta foi o convite que enviamos aos leitores, há algum tempo, para debatermos sobre a nossa profissão. Chegamos ao último número da série: ‘os pontos de vista sobre a sociologia como profissão’. Eventualmente, a série irá prosseguir. Esperamos que os leitores tenham tirado algum proveito dos textos. Entretanto, teria sido muito mais interessante e estimulante se tivessem participado mais activamente no debate. Houve alguma participação no início, mas foi-se enfraquecendo. O que poderá estar por detrás desta fraca participação? Tendes alguma ideia?
Pontos de vista sobre a sociologia como profissão
As causas dão razão? Ou: você estaria a estudar sociologia hoje se Weber não tivesse existido? (7)
Há um exercício simples que gosto de fazer com estudantes. Peço-lhes para levantarem o braço. Geralmente todos levantam. Depois pergunto-lhes porque levantaram o braço. A resposta não se faz esperar: porque eu disse para eles levantarem o braço. Se as coisas da vida fossem assim tão simples! Era só o Elísio dizer “levanta o braço!” e toca daí toda a gente a levantar o braço; ou o Presidente da República dizer aos funcionários das alfândegas “não roubem mais!” e toca daí eles deixarem de roubar; ou o professor de teorias sociológicas dizer “leiam o capítulo I de Economia e Sociedade de Weber para a próxima aula” e toca daí os estudantes atrás do livro na biblioteca para ler o capítulo sobre os conceitos básicos de sociologia. Esse tipo de vida até mete um bocado de nojo. Toda a gente a obedecer, tudo direitinho, que horror! É claro que a vida não é assim. E a razão que faz com que não seja assim responde à pergunta que encabeça o texto: as causas dão razão? Não, não dão.
Vamos por partes. O conceito de causa não é fácil. Há quem julgue que ele esteja no centro do empreendimento científico. Se a função da ciência é explicar fenómenos, então, a ciência não faz outra coisa senão procurar pelas causas dos fenómenos. A composição do júri que delibera sobre esta matéria é bastante heterogénea e ainda não se chegou a veredicto nenhum. Pessoalmente, estou do lado dos jurados que acham que esta visão é demasiado redutora. De qualquer maneira, vale à pena reflectir mais sobre as suas implicações. A noção de causa (causalidade) está presente em muito do que fazemos em sociologia. Na verdade, arrisco uma generalização selvagem para dizer que quanto mais fraco for o sociólogo do ponto de vista metodológico, mais apetência tem ele para explicações causais. Assim, é frequente ouvir por aí quem diga que a causa da corrupção são os baixos salários da função pública, ou o fraco sentido moral dos funcionários, ou ainda o mau exemplo dado pelos chefes. Coisas assim.
Qual é exactamente a estrutura morfológica dum argumento causal? Basicamente, a ligação causal relaciona ocorrências. Coisas, propriedades ou estados não fazem parte desta ligação. Dito de outro modo, só mudanças é que se podem relacionar de forma causal. A decisão de pagar pouco ao funcionário público pode fazer com que um funcionário passe a exigir comissões indevidas (em linguagem caseira: o funcionário vira cabrito e começa a comer onde está amarrado). Dizemos que a ocorrência O é causa da ocorrência P se, e só se O é suficiente para que P ocorra. Por exemplo, se chove O, quem está na rua fica molhado (se não tiver guarda-chuva). Pelo contrário, dizemos que O é uma causa de P se, e apenas se O é necessário, mas não suficiente para que P ocorra. Isto é maneira de falar de filósofos, por isso não se chateiem comigo. Por exemplo, o aumento de preços de produtos alimentares é causa necessária, mas não suficiente para as pessoas irem a rua protestar; os protestos, por sua vez, são causa necessária, mas também não suficiente para que haja pilhagem e vandalismo. O que este exemplo simples mostra é algo especial à sociologia: muitos factos sociais têm múltiplas causas que contribuem para determinados resultados.
Porque levantaram o braço? Porque o professor disse para levantarem o braço. Mas porque levantaram o braço quando o professor disse para levantarem o braço? Porque os estudantes sempre levantam o braço quando o professor diz para eles levantarem o braço. Ai é? Lembram-se do problema da indução? Então? Ah não, não é bem assim (tosse embaraçada), bom, você sabe, é que... Estas são as reacções normais. Há quem levante o braço porque foi bem educado em casa para respeitar as pessoas de autoridade. Há quem levante o braço porque não quer ser o único a não levantar o braço. Há quem levante o braço porque acha que assim cai nas boas graças do professor. Há quem levante o braço por considerar a exortação uma óptima oportunidade de se espreguiçar um bocado. Há quem levante o braço para que o professor não pense que as pessoas de Inhambane têm manias de serem rebeldes. E por aí fora. E notem uma coisa: qualquer uma destas razões pode se desdobrar em muitas outras.
É por causa destas dificuldades que na forma mais dura de sociologia, nomeadamente aquela que quantifica, se dê privilégio à probabilidade. O raciocínio é impecável. Há causas e há o acaso. Se calhar, o acaso pesa mais do que a causa. O acaso é função do acidente ou da coincidência, uma das principais fontes de superstição entre nós. Alunas duma escola construída no terreno que outrora foi cemitério duma linhagem que não foi consultada (quando se construíu a escola), prontos, deve haver uma relação entre os espíritos e os desmaios. É a nossa tradição. É muito complicada. Nós somos africanos. Depois os jornais e a televisão convidam especialistas para pronunciarem longas dissertações sobre aspectos da nossa cultura ancestral. O sociólogo duro considera que o acaso, bem estudado (com a ajuda de estatística que se debruça sobre processos aleatórios) pode revelar padrões. O número de acidentes que ocorrem entre as 2 e as 3 de madrugada na marginal e que envolvem jovens (cuja maioria tirou o carro dos pais sem licença destes) forma um padrão de acidentes que nos pode permitir tirar ilações a respeito da sua distribuição. Quem concluir que a causa desses acidentes é a fúria dos pais (que não foram consultados...) não está a ler bem este texto e muito provavelmente anda aqui perdido.
Mas voltemos ao exemplo do braço para o ar. Não sei se repararam numa coisa muito interessante. É que aquilo que eu apontei como possíveis causas é, bem analisado, algo que está melhor no reino daquilo que chamaríamos de razões. E isto é importante. Já houve filósofos que disseram que causas e razões são uma e mesma coisa (Leibnitz, Descartes e mesmo Spinoza), mas é preciso cuidado com isso. Conforme Max Weber já havia dito há muitas décadas, a sociologia vira a sua atenção analítica para as razões que as pessoas têm para fazerem o que fazem. Ao contrário do que muitos pensam, Weber nunca descartou a importância de causas, embora ele aconselhasse cuidado. O que ele sempre disse foi que a sociologia, ao tentar explicar seja o que for, vai ter que olhar para probabilidades objectivas. Ela faz isso argumentado de forma contra-factual, isto é perguntado como as coisas teriam sido se o que precisa de ser explicado tivesse tido este ou aquele comportamento/manifestação. Este procedimento permite não só avaliar a importância dum determinado evento como também avaliar o peso relativo do que o antecedeu.
Mas o ponto central é que razões pesam mais do que coisas naquilo que o sociólogo tem de considerar como seu objecto. E isso é um grande quebra-cabeças.           

Friday, 1 April 2011

Higher Education Master’s in Africa Programme (HEMA): call for applications 2011

UNIVERSITY OF THE WESTERN CAPE

FACULTY OF EDUCATION

HIGHER EDUCATION MASTER’S IN AFRICA

CALL FOR APPLICATIONS 2011



The Higher Education Master’s in Africa Programme (HEMA) is a NORAD-sponsored collaborative programme involving the University of the Western Cape, the University of Oslo, and the Centre for Higher Education Transformation (CHET). HEMA at UWC is a research-based programme (by dissertation) focusing on the changing functions, policies, and operations of Higher Education. Before conducting thesis research, students will take three non-credit modules, viz. Introduction to Higher Education (to be taught at the University of Oslo as part of the Erasmus Mundus European Master’s in Higher Education Programme); Research Methods and Proposal Development; and Higher Education and Development (to be taught at UWC).

Through various disciplinary perspectives, the programme will provide students with a solid basis for analysing and critically assessing change processes at all relevant levels in higher education. This Master’s programme is the first to include a focus on the complex relationship between higher education and development. The programme is linked to a research network on expertise in higher education in Africa, giving successful applicants access to the latest knowledge in the field.

The student target group is those currently involved in or aspiring to become involved in higher education, be it as administrators, researchers, policy-makers, curriculum managers, or consultants.

Scholarships: A number of scholarships are available.
Commencement date: July 2011.

Entrance requirements: a four-year degree (upper second class and above) or its equivalent. Students from non-English speaking countries will be required to provide evidence (certificates) of proficiency in English e.g. TOEFL with at least 550 points (paper-based) or 213 (computer-based), IELTS test with at least 6.0 points, or other qualifications that can be evaluated by the admission committee of the programme. Demonstrated writing ability through the submission of research reports or publications is essential. Practical experience in Higher Education research, administration and/or policy work, would be an added advantage.

Application: Fill in online application via www.uwc.ac.za – choose “M.Ed. (by thesis)” option
and specify “HEMA” under scholarships.
Application deadline: 15 May 2011

For more information and queries regarding the application, please contact Ms Val Koopman at vkoopman@uwc.ac.za; or contact Dr Gerald Ouma at gouma@uwc.ac.za

For other related correspondence/submission of documentation please contact:
Ms Val Koopman
Faculty of Education,  University of the Western Cape
Private Bag X17 Bellville 7535 South Africa

Sunday, 27 March 2011

Ferramentas de Sociologia[6]

Pontos de vista sobre a sociologia como profissão
A média age? Ou: porque é que um estudante não choca com um professor? (6)
Um pouco de complicação nunca fez mal a ninguém (esta é uma generalização grosseira). Eis uma. Paul Lazarsfeld, o grande sistematizador da metodologia em pesquisa empírica social, diz que grupos sociais têm aquilo que ele chama de propriedades colectivas. Um grupo social pode ser uma etnia, os alunos duma escola, a direcção duma universidade, um partido político, os vendedores dum mercado, um bando de ladrões, a equipa duma esquadra policial, etc. Propriedades colectivas têm basicamente dois valores (Lazarsfeld fala de três, mas não vou falar da terceira porque é muito complicada para explicar em poucas palavras). Um valor é o que ele chama agregado e o outro é o que ele chama estrutural. Todo o estudante de sociologia sabe o que isto significa. O valor agregado duma propriedade colectiva é uma construção estatística que não tem existência real: a média, mediana e o modo. Tudo artefactos estatísticos que caracterizam colectividades. O estudante de sociologia de universidades privadas de Maputo consome, em média, 35,6 garrafas de cerveja 2M toda a sexta-feira. Este estudante, obviamente, não existe. Mas a afirmação procura caracterizar um grupo específico. O valor estrutural duma propriedade colectiva, por sua vez, refere-se a uma relação. Isto é, alguém é uma determinada coisa em virtude da sua relação com outra coisa. O estudante é estudante porque existe uma categoria que se chama professor. Existe uma camada pobre porque existe uma camada rica. E por aí fora.
Onde está a complicação? Bom, ela está no que a combinação destes dois valores nos permite dizer com segurança sobre a realidade social. Imaginem, por exemplo, a seguinte situação: uma estudante está a caminhar pelo corredor da faculdade. Em sentido oposto vem aí o professor catedrático Pedro Hilário Devaneios. O corredor é estreito, um deles tem que ceder o caminho. PhD parte do princípio de que a estudante sabe quem ele é, e não só, ela sabe que estudante tem que ceder passagem ao professor; a estudante, por sua vez, acaba de ganhar o concurso de Miss Melhor Tese Supérflua, é bela e bem mulher e, acima de tudo, sabe que os homens estão sujeitos ao código das boas maneiras disposto pelo cavalheirismo. Comecem a pegar a cabeça com ambas as mãos, pois a colisão é eminente. Vamos complicar ainda mais. PhD conhece as regras de cavalheirismo, em último minuto dá-se conta de que vem em sua direcção a estudante de quem se fala no bar dos professores (entre assobios), parte do princípio de que ela não vai de certeza se orientar pelo código informal da universidade que dá prioridade a quem tem que acarretar com o peso dos títulos pelo que o mais provável é que ela se mantenha em rota. Faltam 4 passos. A estudante, por sua vez, apercebendo-se de que se trata do grande professor catedrático, famigerado pelo cuidado que ele sempre tem de informar a todos que não o querem ouvir o que significa ser professor catedrático, mas tem o hábito de dar boa nota a estudantes bonitas para demonstrar a imparcialidade dum verdadeiro académico (a tese é: deixa passar mesmo estudantes bonitas), decide que o melhor é mudar de rota. Depois é o BUM, ou não.
John Maynard Keynes, o grande economista britânico que pregou a intervenção correctiva do Estado na economia, uma vez deu um exemplo pertinente. Ele referiu-se a um concurso num jornal que exigia que os concorrentes identificassem as seis caras mais bonitas dum conjunto de cem fotografias. O vencedor seria aquele cuja escolha estaria mais próxima da média de preferências de todos os concorrentes. Já podem imaginar o problema. Para ganhar, não posso partir do princípio de que as minhas preferências estarão próximas da média. Para ter hipóteses de ganhar tenho que escolher aquelas caras que eu acho que correspondem à média. Mais um problema aqui, pois os outros vão pensar a mesmíssima coisa (se forem indivíduos racionais). O mais seguro para ganhar não é nem escolher as caras que considero mais bonitas, nem as que considero serem próximas da média. O mais seguro é antecipar o que a opinião média considera ser a opinião média. Mais seguro ainda é considerar o que a opinião média considera que a opinião média considera ser a opinião média. E por aí fora. Complicado.
O mais incrível, porém, é que estudantes raramente chocam com professores. Porquê? Provavelmente porque, apesar de tudo, o senso-comum intervém de forma forte na regulação do nosso quotidiano. Alguns de nós gostam de sugerir que o sociólogo é aquele que ultrapassa o senso-comum. Bom, é verdade, mas também não. O sociólogo deve procurar entender a estrutura deste senso-comum e como ele se manifesta no comportamento dos indivíduos. A sociedade produz-se a si própria e é pelos seus meios que também resolve tudo que é problema. O sociólogo não estuda a sociedade para ajudá-la a resolver seja o que for. Estuda-a para perceber como ela se produz e reproduz (criando e resolvendo problemas). Se é que a sociedade existe, claro.
Colaboração: Elísio Macamo.

Monday, 21 March 2011

Ferramentas de Sociologia [5]

Pontos de vista sobre a sociologia como profissão

Quando 1 é igual a N, ou: quem tem medo de Anibalzinho? (5)

Uma das tendências mais nefastas do discurso público é a generalização. É exactamente isso que o título deste texto quer dizer. Vemos alguém a urinar em plena via pública na cidade do Maputo e dizemos logo: as pessoas de Maputo são porcas! Um funcionário dos serviços das alfândegas nos extorque dinheiro e dizemos: o pessoal da migração é corrupto! Um professor falta às aulas várias vezes durante o semestre e dizemos: os professores moçambicanos estão-se nas tintas para os estudantes. Partimos do comportamento duma única pessoa para dizermos que todas as pessoas que pertencem a essa classe são assim. Este é um problema que está ligado ao que eu tentava explicar no texto anterior em relação ao nosso trabalho descritivo: a constatação geral é menos interessante do que a descrição das condições em que a nossa constatação faz realmente sentido.
No fundo, porém, a generalização é natural à nossa constituição humana. Salvo os que têm a dádiva da clarividência, nós os restantes mortais não podemos ver o futuro. Ou melhor, vemos o futuro em função do que o presente é e o passado foi. Os filósofos têm um nome para isto: o problema da indução. A melhor maneira de explicar é parafraseando uma ilustração sugerida pelo filósofo britânico Bertrand Russell, muito conhecido pelo seu bom gosto de companhia feminina. Ao invés do perú que ele utilizou para a sua versão vou utilizar o cabrito. É muito mais próximo da nossa realidade. Pelo menos no sul do país é o animal de eleição para cerimónias familiares que digam respeito à tradição. O cabrito escolhido para ser sacrificado recebe um tratamento especial nas semanas que antecedem a cerimónia. Procura-se pelas melhores pastagens, dá-se-lhe de beber que se farta, é tudo cabrito aqui, cabrito ali. Se o cabrito pensasse – vamos supor que pensa – ele havia de certeza de pensar que essa gente gosta dele. Havia de desenvolver a expectativa de todos os dias ser bem alimentado. Teria muita dificuldade em imaginar que fosse chegar um dia que lhe iam degolar o pescoço, entornar o seu sangue numa tigela e cozê-lo misturado com os seus orgãos sexuais para fazer aquele prato ao qual só homens é que têm direito e que dá pelo nome de “ub’endhe”. Na minha infância o consumo do “ub’endhe” é que justificava aos meus olhos porque valia a pena ter nascido rapaz. A emancipação veio estragar isto tudo.
O cabrito foi vítima do problema da indução. Partiu do que viveu no passado para concluir que o futuro ia ser também assim. Generalizou a partir de experiências singulares. Está desculpado por ser cabrito. Mas há sociólogos que caiem no mesmo erro. Não vou dizer quem. A realidade social não é uma experiência controlada. E já vamos ver porquê. Se, por hipótese, eu visse o Anibalzinho a disparar a uma distância de 15 metros para um grão de milho pousado na cabeça do chefe da polícia da cidade de Maputo e sempre a acertar (no grão, não na cabeça do agente!) e depois ele (ou um barão da droga qualquer) me oferecessem 10 milhões de dólares para ele testar a sua pontaria comigo (atirando para o grão de milho na minha cabeça), o que faria? Recusar ou aceitar? Se eu aceitasse seria apenas por confiança na lógica. Procederia, argumentativamente, da seguinte maneira: constataria que ele atirou várias vezes e não falhou. A experiência indutiva me diria para prever que a próxima vez que ele atirasse também não falharia. A hipótese geral é clara: sempre que o Anibalzinho dispara acerta no alvo!
E é aqui onde se vê que a realidade social não é uma experiência controlada. Pode ser que de todas as vezes que o Anibalzinho atirou os factores tivessem sido os mesmos. Quando chegar a minha vez de oferecer a minha cabeça para a experiência o braço dele pode tremer por uma razão qualquer; os jornalistas presentes podem tossir e distrair o atirador; o celular dele pode vibrar no bolso que ele se esqueceu de esvaziar antes de ir à carreira de tiro. É aqui onde se vê os perigos reais do problema da indução e, por associação, da generalização. Do ponto de vista da lógica não há perigo nenhum. Já que a hipótese é que sempre que ele dispara acerta no alvo, o perigo para mim é mínimo. Se ele atirar e não acertar no alvo (o grão de milho na minha cabeça), mas sim acertar no ALVO (entre os meus olhos), sempre posso dizer (se ainda conseguir falar...) que aquilo não foi nenhum tiro (porque quando ele atira acerta no alvo!); igualmente, posso dizer que já que quando ele atira acerta no alvo, ao falhar não pode ter sido ele a atirar (porque ele sempre acerta!). a lógica é imbatível, mas muito arriscada como princípio de vida.
Destas considerações todas resulta que o sociólogo não pode ser dado a afirmações bombásticas. A expressão “sempre que...” é derrotada por um único exemplo oposto. Basta, portanto, que o Anibalzinho falhe uma vez para essa hipótese ser confinada à lata de lixo. Pelo contrário, a expressão “muitas vezes...” não é derrotada por um único exemplo oposto. O sociólogo tem que procurar colocar-se em posição de formular este tipo de hipóteses. Para esse efeito, precisa naturalmente de ter consciência da necessidade de identificar as circunstâncias em que algo é, mas também, e sobretudo, ter sensibilidade para a forma como a realidade social resiste à ditadura dos nossos conceitos e teorias.

Monday, 14 March 2011

Ferramentas de Sociologia [4]

Pontos de vista sobre a sociológica como profissão

Como é que o sociólogo pode falar do quê? Ou: Weber existiu?(4)
Esta pergunta é difícil. Dificílima. Isto é, em parte, porque ela é algo vaga. Vou tentar ser mais concreto. Nas aulas de sociologia ouvimos os professores a falarem de Max Weber, Émile Durkheim, Georg Simmel ou W.E. Du Bois. São nomes de pessoas que viveram lá para os tempos. Nunca nenhum de nós (incluíndo os professores de sociologia que falam sobre estes indivíduos) viu-os. Como é que nós, ao falarmos destes indivíduos, temos a certeza de que estamos a falar da pessoa de carne e osso dona desse nome? Com que legitimidade podemos falar desse pessoal? Podemos? Mesmo se disséssimos que nos referimos a pessoa a quem se deu esse nome no passado havia de restar ainda o problema de distinguir essa pessoa de muitas outras que existiram no passado e, de certeza, tiveram esse nome também. A resposta a esta pergunta é central para a justificação do procedimento metodológico na sociologia.
Nós podemos responder à pergunta sobre se o Weber de que estamos a falar é o Weber que temos em mente e que viveu na Alemanha entre o século passado e o antepassado simplesmente acrescentando que nos referimos ao Weber sociólogo. Houve outros Weber, provavelmente carpinteiros, sapateiros, advogados, médicos, etc. O Weber a que nos referimos é o Weber sociólogo. Se tiver havido mais Weber sociólogos, então referimo-nos ao Weber sociólogo que escreveu “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”. E aqui surge outra pergunta: como é que sabemos que o Weber sociólogo a que nos referimos é o autor dessa obra? A obra podia ter sido da autoria dum dos estudantes dele que ele simplesmente plagiou e colocou no mercado como sua obra. Podia, como sempre, continuar a complicar a história, mas não há necessidade. Quando nos referimos a alguém – e já agora, quando nos referimos a seja o que for – temos em mente o indivíduo que satisfaz um certo número de critérios descritivos com os quais associamos o seu nome. Os filósofos chamam a isto de teoria da descrição ou da satisfação, mas não vou entrar nisso, nem agora, nem nunca.
Na actual reflexão sobre a pesquisa empírica social tem se falado muito deste problema. A noção central nesta discussão é a de “substantivos próprios”. Sociólogo, por exemplo, é um substantivo próprio. Para que um substantivo próprio tenha utilidade precisa de se articular com algumas descrições. Sociólogo é alguém que se formou em sociologia, produz trabalho considerado sociológico, é, talvez, académico, está familiarizado com as teorias e metodologias da sociologia, etc. Deste modo, se queremos determinar se o Weber de que falamos é o Weber que existiu realmente o único que precisamos de fazer é conferir se ele satisfaz essas condições. Mais importante ainda é identificarmos um aspecto particular desse conjunto de descrições que distingue (ou particulariza) o Weber que temos em mente. Mesmo na eventualidade de algum historiador vir a descobrir um dia que “A Ética Protestante...” não foi escrita por Max Weber, podemos mesmo assim dizer que ao falarmos de Weber referimo-nos ao indivíduo que se supõe ter escrito essa obra.
Dizia mais acima que a resposta colocada é crucial para a justificação do procedimento metodológico sociológico porque ela revela uma qualidade fundamental do conhecimento sociológico. A descrição que nós fazemos da realidade está virada a dizer em que circunstâncias determinada coisa é como é. Se parece complicado é porque é. Quando eu, por exemplo, constato que a polícia de Moçambique é corrupta não me comprometo apenas a usar o termo “corrupção” com cuidado. Usar o termo com cuidado significa certificar-me do facto de o termo se referir a um conjunto de descrições (aceitar dinheiro em troca de ignorar uma infracção; aproveitar-se da posição de poder para obrigar pessoas a pagarem dinheiro em troca da condescendência do agente policial, etc.) que eu posso articular com o comportamento de agentes policiais reais. Mas não só isto. Comprometo-me também a descrever as circunstâncias (sociais) dentro das quais o comportamento considerado corrupto se torna possível. Neste sentido, o simples acto de receber dinheiro de alguém em troca de fechar os olhos perante uma infracção não é necessariamente corrupção. Ou melhor, a força normativa que o conceito de corrupção tem vem à superfície quando eu descrevo o quadro jurídico que torna ilegal essa conduta. E mais: a descrição fica mais completa ainda quando sou capaz de identificar o tipo de polícia, o tipo de membros do público e o tipo de situação em que essa ocorrência é mais provável. O trabalho dum sociólogo é essencialmente descritivo. É na descrição (e na elucidação dos termos dessa descrição) que o sociólogo pode falar do quê das coisas.

[E. Macamo].

Sunday, 6 March 2011

Ferramentas de Sociologia [3]


 

Pontos de vista sobre a sociologia como profissão

O que sabemos, então? Ou: O Mário viu Elísio Macamo mesmo? (3)
Se calhar a pergunta até é como sabemos, não o que sabemos. Nos dois primeiros textos introduzimos a ideia de que a sociologia estuda a regularidade dos fenómenos sociais. Aqui surge um problema: quando é que sabemos? Se tivesse perguntado “o que é conhecimento sociológico?”, a resposta teria sido circular: “é o que sabemos sobre a regularidade dos fenómenos sociais”. Isso seria batota. Vamos imaginar um estudante de sociologia que vive no Tangará (residência universitária em Maputo). Está num bate-papo com alguns dos seus colegas e de repente exclama: olha, o Elísio Macamo está a entrar na Bósnia (Bósnia, segundo informações de primeira mão, é o nome do refeitório dessa residência universitária)! Bom, a distância é um pouco grande para ele dizer com certeza. Mesmo a probabilidade de o Elísio Macamo ir à Bósnia é um pouco remota. Mas o estudante de sociologia, vamos chamá-lo Mário, Mário Cachamba, acredita ter visto EM a entrar no refeitório.
Então, o Mário diz que me viu a entrar na Bósnia. Ele acredita que me viu a mim e não outra pessoa. O Mário é um tipo sincero. Não mente. É membro assíduo dos Testemunhas de Jeová. E é de Tete. Em Tete ninguém tem visões, é tudo gente fiche. Gente normal. O Mário diz o que viu. E foi EM que ele viu a entrar na Bósnia. Vamos agora supor duas situações diametralmente opostas. Vamos supor primeiro que os amigos do Mário vão a correr para o refeitório para confirmarem. Quando lá chegam constatam que a pessoa que o Mário acredita ser EM é de facto EM. Quando o Mário disse ter visto EM sabia que era EM ou acreditava ser EM? Segunda situação: os amigos vão verificar e constatam que o EM visto pelo Mário não é nenhum EM. É Hélder Jauana, um EM mais treinado, jovem e com melhor gosto no vestuário. Agora, o Mário mentiu ou enganou-se? E se enganou-se, o que há de mal na sua crença sincera de ter visto EM? Há algo de mal?
Podia continuar a complicar a situação. Podia, por exemplo, pedir-vos para imaginarem que o Mário ganhasse o hábito de identificar pessoas a entrarem na Bósnia e se desse a esse gosto durante um mês inteiro. Lá iam passando Elísio Macamo, Carlos Serra, Carlos Castel-Branco, José Castiano, Teresa Cruz e Silva, Severino Ngoenha, Nair Teles, Luís de Brito, Isabel Casimiro, Filimone Meigos, Judite Chipenembe e não sei quem mais. Segundo o Mário. Não percam tempo agora a pensar que mudanças deveria haver na ementa da Bósnia para de repente ter tão ilustres clientes. Concentrem-se no Mário Cachamba. Vamos supor que de todas as vezes se tratasse do Elísio Macamo. Qual seria o problema do Mário?
Bom, o problema do Mário seria o problema que todo o sociólogo enfrenta. Sociólogos são pessoas, portanto, acreditam em muitas coisas. Muitas vezes essas crenças são sinceras. Mas para que essas crenças deixem de ser simplesmente crenças e passem a ser conhecimento é necessário que a informação que elas conteem seja digna de confiança. Em ciência partimos do princípio de que conhecimento – aquilo que a ciência produz – é crença fiável. Para esse efeito, precisamos de métodos. Os métodos ajudam-nos a descrever a realidade de forma fiável. Portanto, o que nós sabemos, ou como nós sabemos é aquilo que resulta da aplicação de métodos de recolha e tratamento de informação. Por mais que acreditemos na ideia de que Moçambique é dominado pelo Sul (o tema predilecto de alguns), se não submetermos essa crença ao teste do procedimento sistemático, estaremos na situação do Mário. Não mente, mas também não dá para confiar nele. Por mais que acreditemos na ideia de que temos crianças de rua por causa da política social do governo (que consideramos profundamente injusta e mal informada), se não submetermos essa crença ao teste do procedimento sistemático, continuaremos como o Mário. Sincero, mas (provavelmente) enganado.
Espero que esteja a ficar clara uma marca distintiva da sociologia. O sociólogo não é aquele que sabe mais sobre a sociedade. O sociólogo é aquele que submete o que sabe sobre a sociedade ao teste do procedimento sistemático. Isto pressupõe uma abertura de princípio ao debate de ideias assente na importância dum certo tipo de provas para a fundamentação do que dizemos em público. Por exemplo, eu posso achar que muita coisa no país é determinada pela força dos espíritos dos nossos antepassados. Não seria defícil encontrar provas para esta crença. Há muita gente que é morta no campo (e também em zonas urbanas) sob acusação de feitiçaria. A mera crença na existência de feiticeiros seria suficiente para fundamentar parcialmente a minha ideia de que os espíritos dos nossos antepassados são fortes. Já houve o caso Quisse Mavota, há várias mulheres em várias famílias que acham que foram prometidas em casamento a espíritos, razão pela qual não conseguem viver com nenhum homem, andam doentes, etc. A questão, porém, é até que ponto isto tudo constitui prova no sentido de produção de conhecimento sociológico.
Não constituti, evidentemente, prova nenhuma. Mas isto não impede ninguém de se socorrer de uma dessas coisas para nos encher o saco com a ideia de que os espíritos são fortes. Aliás, alguns até chegam a dizer que é a nossa tradição. Fazer sociologia é também problematizar este tipo de crenças.

[E. Macamo]

Monday, 28 February 2011

Ferramentas de Sociologia [2]


Pontos de vista sobre a sociologia como profissão

O que é regular é o que é normal? Ou: o mercado central é o mesmo? (2)
Já vimos que fazer sociologia é estudar a percepção de regularidade. Mas o que é exactamente esta regularidade? Vamos fazer uma suposição. Desta feita, porém, vamos escolher outro tema longe do futebol para não alienar os que não se interessam pelo desporto, mas consideram a sociologia útil. Imaginemos um mercado, vamos lá, o mercado central da cidade de Maputo. Neste momento ele encontra-se na baixa da cidade, bem encaixado entre quatro avenidas. Se as autoridades municipais mudassem o mercado central daquele lugar para outro sítio, digamos, no bairro da Polana, o mercado central continuaria mercado central. Teria apenas mudado de lugar. Havíamos de dizer que o mercado central já não está na baixa, mas sim na Polana.
Há várias coisas que nos permitem falar do mercado central como algo contínuo. É a sua função de mercado, portanto, a compra e venda de produtos. São os papéis assumidos pelas pessoas que andam por lá, nomeadamente fiscais, compradores, vendedores, ladrões, etc. Estes papeis desdobram-se em muitos outros: fiscal corrupto, fiscal íntegro; vendedor caro, vendedor simpático, vendedor porco; comprador freguês, comprador chato; ladrão violento, ladrão subtil; e por aí fora. Há também os cheiros (que, sintomaticamente, chamamos de “típicos”), os sons, o aperto em certas horas do dia, etc. Tudo isto nos devolve a sensação de estarmos no mercado central. Na verdade, as mesmas coisas manifestam-se noutros mercados. Porque razão é que o mercado central que se mudou da baixa para o bairro da Polana continua o mesmo mercado central? Porque será que a percepção duma continuidade que é característica desse tipo de lugar pode servir para individualizar um lugar ao ponto de o considerar o mesmo ainda que mude de posição?
Se calhar já estou a trespassar a filosofia e não devia. Mas a resposta banal é esta: a convenção ajuda a reforçar o nosso sentido de regularidade. Basta que um certo número de pessoas se habitue à ideia de que o mercado que está na Polana é o mercado central que estava na baixa. Não teríamos dificuldade em aceitar esta ideia se a aplicássemos a pessoas. Eu posso estar na baixa esta tarde, e logo estar no bairro da Polana. Porque continuo a mesma pessoa? Que penso, ando, falo, sinto, etc. é trivial. Toda a gente, em princípio, faz isso. Em que consiste a minha individualidade que permite às pessoas falarem do Elísio Macamo visto aqui e ali como sendo a mesma pessoa? Estas questões levantam problemas muito sérios à definição da sociologia. O regular, em algumas escolas de sociologia, tem sido visto como sendo o que é normal. E a combinação do regular com o normal é complicada. O normal sugere aquilo que satisfaz a norma. A norma é um entre vários estados. A única diferença (que é grande) é de que a norma tem por detrás de si um aparato de força e poder que a impõe. Assim, quando dizemos que algo é normal estamos, no fundo, a dizer que algo é como devia ser. E o que é como devia ser é o que certas pessoas gostariam que outras aceitassem como o estado natural das coisas.
Desta relação problemática entre o regular e o normal surgiram tendências diferentes de fazer sociologia. Os que, como eu, se interessam pelo que é regular estão apenas preocupados em perceber como os indivíduos juntos produzem (e reproduzem) situações típicas. Eles têm a consciência de que por detrás do regular pode haver desigualidade, injustiça, dominação, etc., mas não abdicam da sua preocupação fundamental em perceber as condições de produção dessas situações típicas. Os que, como outros colegas de profissão, se interessam pelo que é normal estão mais interessados em expôr o regular substituindo-o por aquilo que consideram ser uma ordem social mais justa, humana ou simplesmente adequada. Esta abordagem pressupõe, naturalmente, um forte sentido do que devia ser. E aí está a diferença: há sociólogos que estudam o que é; e há os que estudam o que devia ser. Insisto, porém, que a base de todo o empreendimento sociológico é o que é. E não o que devia ser.
[E. Macamo]