Thursday, 2 August 2012

Socorro, Moçambique pode ficar rico!: (1) E depois?

Aquilo que muitos políticos moçambicanos sempre sonharam parece lentamente estar a virar realidade: os recursos naturais existem em Moçambique e podem ser explorados com bastante proveito. As recentes descobertas de enormes reservas de gáz no norte de país são, para quem ainda podia ter dúvidas, a confirmação final disso. O que isso pode significar em termos de actividade económica e interesse por Moçambique por parte de investidores estrangeiros já Tete tem vindo a mostrar. Finalmente, esperam muitos de nós, o nosso país vai deixar de decorar as estatísticas negativas mundiais, vai deixar de olhar para Angola com aquele olhar de cachorro vadio que a riqueza diamantífera e petrolífera dos nossos “irmãos” lá do Atlântico suscitava em nós e vai, ufa, se livrar dessa burocracia internacional que vive da nossa miséria e subverte constantemente o nosso processo político.

Ou vai? Nem todos os moçambicanos partilham estes cenários enebriantes dum futuro melhor que vai deixar de ser slógan. Na verdade, há receios, muitos dos quais bem fundados. Nos meios académicos utiliza-se uma expressão que resume graficamente a base destes receios: a maldição dos recursos. A expressão refere-se à situação de muitos países em desenvolvimento detentores de recursos como petróleo, gáz e minerais que resvalaram para situações de conflito – muitas vezes armado – pelo controlo desses recursos. E quando não andaram em conflitos ficaram reféns de elites políticas rapinosas, cuja necessidade de manutenção de poder a todo o custo acabou criando ordens políticas instáveis e explosivas. O continente africano está cheio de exemplos desde Angola, passando pela República Democrática do Congo até à Nigéria. Moçambique vai ter a mesma sorte?

A julgar pela forma como se comenta a racionalidade política no nosso país há muita gente que vê este perigo. Embora volte e meia as instituições financeiras internacionais que dirigem os nossos destinos nos passem atestados de bom desempenho, internamente a análise da nossa prestação – ou melhor, da prestação do governo; melhor ainda: prestação do governo da Frelimo – não tem sido positiva. Li vários comentários na internet, por exemplo, que por ocasião da passagem de mais um aniversário da nossa independência usavam linguagem negativamente forte – ladrões, corruptos, egoístas – para descrever as elites políticas no poder. Embora esta forma de comentar a acção política seja típica duma cultura de debate característicamente moçambicana – e cuja sociologia está ainda por fazer – ela revela um profundo mal-estar e desconfiança em relação à nossa capacidade – não só do governo, isto é do governo da Frelimo – de gerir esta possível riqueza repentina.

Já se multiplicam “estudos” sobre os interesses económicos do Presidente da República que dão conta do seu envolvimento em tudo que é negócio no país. Já começa a ganhar corpo e forma a ideia duma elite nacional renteira ligada ao controle do estado – no passado, nos meios académicos, falava-se de classe-estado – por via da imposição duma versão da História do país que destaca de forma desmesurada o protagonismo de certas pessoas. É estranho que a descoberta de “riqueza” não constitua necessariamente boa notícia para muitos de nós, mas apenas mais uma razão para franzirmos o sobrolho e destacarmos as qualidades mais negativas que podemos identificar no nosso tecido social e político. Somos um país deveras estranho. Mas justamente por causa disso acho que seria interessante iniciar uma reflexão sobre os desafios que esta “riqueza” nos coloca sugerindo outras formas – menos pessimistas – de abordar a sorte que nos sorri. Para o efeito, só precisamos de três coisas: sociologia, pensamento sociólogico, cidadania sociológica. Vindo de mim nenhuma dessas coisas é surpreendente. (Continua)
Colaboração: Elísio Macamo, Sociólogo.

Wednesday, 1 August 2012

Pensar sociologicamente

 

Elísio Macamo

Introdução
O título que dei a esta apresentação é algo pretensioso. É como se estivesse a sugerir que a maneira como os sociólogos pensam é qualitativamente melhor do que a maneira como os outros pensam. Na verdade, a minha intenção ao dar este título à apresentação é de chamar a vossa atenção para dois aspectos importantes. O primeiro aspecto tem a ver com a palavra “pensar”. Tradicionalmente, nós partimos do princípio segundo o qual a ciência produz conhecimento. Isso é verdade até um certo ponto. Algo anterior à produção de conhecimento, e que define a actividade científica, é uma maneira muito específica de pensar. Essa maneira muito específica de pensar é que é responsável pelo tipo de conhecimento que a ciência produz. A sociologia serve-se dessa forma específica de pensar para produzir uma relação crítica com a sociedade. O segundo aspecto relaciona-se com o “sociológico”. Com efeito, pensar sociologicamente não se esgota na nossa capacidade de citarmos Weber, Durkheim ou Simmel. O pensamento sociológico ganha importância quando ele é capaz de responder à seguinte pergunta: qual é a relevância de “Teorias sociológicas I e II” para as coisas imediatas da vida?
É sobre estas coisas que quero falar convosco hoje. Sei que muitos de vocês se iniciam em sociologia. Quando me encontrava na mesma fase durante a minha própria formação também tive que lidar com a agonia de explicar às pessoas o que um sociólogo faz. Dizer que sociólogo estuda a sociedade não só é circular como também completamente impenetrável. O que é estudar a socidade? Também não ajuda muito dizer que a sociologia estuda relaçãoes sociais ou a acção social. Tudo isso é metalinguagem para quem não está familiarizado com a nossa disciplina. Daí que seja importante procurar outras maneiras de explicar a nossa actividade a partir da sua pertinência para as coisas da vida. Achei que poderia abordar estas questões convosco partindo de dois tipos de erros que cometemos quando trabalhamos sociologicamente. Achei que procedendo dessa maneira iria tornar as coisas mais fáceis uma vez que não vou precisar de utilizar linguagem técnica. Esses erros ocorrem em dois momentos cruciais do trabalho dum sociólogo, nomeadamente aquando da observação e aquando da análise. 
Para não ser muito abstracto na apresentação vou referir-me constantemente a um artigo de jornal (jornal “Expresso”) publicado aqui em Maputo. Trata-se dum artigo da autoria de Gabriel Pedro e tem o título “Prostituição infantil virou moda no Muxúngué”. É uma grande reportagem que fala do aumento dos índices de infecção com o HIV/SIDA na província de Sofala em resultado parcial do aumento da prostituição de menores do sexo feminino. A província de Sofala tem índices de infecção da ordem dos 15% e figura em terceiro lugar na classificação nacional. Segundo o artigo a província é vulnerável por ser um corredor para o transporte de mercadorias do porto da Beira para os países do interior (Zimbabwe, Zâmbia e Malawi). Os camionistas de longo curso é que são os principais utentes da prostituição. Eles são também preferidos pelas trabalhadoras do sexo uma vez que pagam melhor: 1500 Meticais por hora (com este tipo de rendimento neste negócio não entendo porque alguém ainda estuda sociologia...)! A seguir, na lista de preferências das trabalhadoras de sexo, são os mineiros de regresso à casa. Estes pagam 1000 Meticais por hora. Por fim vêm os passageiros de autocarros de longo curso que pagam entre 300 e 500 por hora. O jornalista falou com duas trabalhadoras de sexo a quem teve que pagar 500 Meticais pela entrevista.
Erros de observação
A ciência baseia-se em grande parte na observação para poder dizer o que diz. A observação é muito importante para a actividade científica. Na verdade, ela é importante para todos nós, não só para a ciência. Por exemplo, o jornalista que escreveu o artigo sobre o aumento da prostituição infantil teve que ir ao terreno observar a prática. Cada um de nós aqui presente diz muito do que diz com base no que observou. Infelizmente, a observação nem sempre está isenta de erros. Há basicamente três tipos de erros que podem ocorrer. Vou-me cingir a esses erros para vos introduzir ao pensamento sociológico.
a)      Observações imprecisas
Quantos de vocês aqui se lembram da côr dos sapatos do vosso professor de “Teorias sociológicas I” na segunda semana de aulas? Aposto que ninguém se lembra. Porquê? Simplesmente porque ninguém veio à aula com a intenção de observar isso, a não ser que por qualquer razão alguém tivesse um interesse especial em reter essa informação assim que viu os sapatos. Com isto quero dizer que nós não vemos tudo que vemos. Há certas coisas que retemos e outras que simplesmente ignoramos. Seria, na verdade, difícil reter tudo o que os nossos sentidos nos permitem apreendermos. Temos necessariamente que ser selectivos na observação.  Este reparo distingue a osbervação científica da observação do quotidiano. No quotidiano há muitas conclusões que tiramos que são baseadas em observações muito imprecisas. Duas ultrapassagens perigosas feitas por dois “chapas” diferentes são suficientes para nós concluirmos que o “chapa”, duma forma geral, conduz mal. É provável que isso seja assim mesmo, mas se calhar uma observação mais cuidada havia de revelar que falando na generalidade a má condução do “chapa” não difere da má condução do automobilista médio da cidade de Maputo. Destacamos a má condução do “chapa” simplesmente porque se trata dum grupo muito específico de fácil identificação.
O artigo sobre a prostituição infantil não é exactamente um caso de observação imprecisa. O jornalista foi ao posto administrativo de Muxúngué (em Chibabava) para observar. Não obstante, as suas descrições inspiram pouca confiança. Ele não diz, por exemplo, quantas meninas estão envolvidas nesta prática, quantas eram no ano passado e quantas são agora. Ele utiliza adjectivos: “muitas”, “números alarmantes”, etc. É provável que esta maneira de descrever a situação satisfaça os critérios de qualidade jornalística. Contudo, para a sociologia é muito insatisfatória. Sobretudo num contexto como o do negócio do HIV/SIDA onde vários interesses estão em jogo para empolar ou minimizar os números uma observação precisa é imperiosa. Destes reparos retiro a primeira máxima do pensamento sociológico que gostaria que vocês apontassem:
Antes de tecerem qualquer tipo de considerações sobre seja o que for procurem primeiro saber como foi feita a observação na base das proposições que alguém faz! 
b)     Observações baseadas em generalizações
O segundo erro de observação diz respeito à tendência que temos de generalizar. Esta é uma tendência normal e, talvez até, legítima no contexto do quotidiano. Afinal, para funcionarmos no quotidiano não precisamos de muitas observações. Na sociologia (mal feita) olhamos para um número reduzido de casos semelhantes e concluímos que eles são a prova da existência dum padrão geral. E deixamos de observar. No artigo em discussão isto acontece duma maneira muito específica. O jornalista opera com um tipo-ideal, nomeadamente a ideia de menina órfã. Ela corresponde à ideia de alguém que em resultado das difíceis condições de vida que enfrenta não tem outro remédio senão recorrer à prostituição para ganhar a vida. O artigo apresenta, neste sentido, dois casos. O primeiro é o duma menina de 17 anos chamada Albertina Muthisse. Perdeu os pais em 2005 e tem quatro irmãos. Teve que interromper os estudos quando estava na nona classe para poder sustentar os seus irmãos. O segundo caso é de Gilda António que é casada com um mineiro que não volta há sete anos. Tem quatro filhos. Os dois casos falam por si: dificuldades existenciais explicam a opção pela prostituição. Perante estes dois casos pode não interessar mais saber ainda mais sobre a situação. Os dois casos confirmam um padrão geral, a saber o padrão da opção pela prostituição por razões existenciais.
Mas esta observação é problemática. Quando analisamos os casos individualmente vemos que eles são pouco convincentes. Por exemplo, o caso da Albertina Muthisse é curioso. Quando os pais morreram ela tinha 10 anos. Como é que ela sobreviveu até interromper os estudos na nona? Há qualquer coisa que não bate certo nesta trajectória, mas que passa despercibida a partir do momento em que a nossa atenção se concentra no padrão que o caso reproduz. O mesmo acontece com o segundo caso. A idade de Gilda António não é indicada no artigo. Só se escreve que ela é uma jovem. Mas “jovem” com quatro filhos e casada com alguém que não dá sinais de vida há sete anos não é decididamente “menor”. Mas mais uma vez, o padrão reproduzido retira a nossa atenção dos méritos individuais do caso. Destes reparos retiro a segunda máxima do pensamento sociológico:
Antes de aceitar um relato qualquer sobre uma determinada situação o sociólogo precisa de se certificar que ele é baseado numa amostra representativa ou típica segundo critérios qualitativos sistemáticos!
c)      Observações selectivas
Observações selectivas são muitas vezes uma consequência de generalizações. Aqui a tendência é no sentido de concentrarmos a nossa atenção em casos, eventos ou situações que confirmam o padrão que sabemos existir e para o qual já temos uma explicação. Por exemplo, quando nos interessamos pela má condução dos “chapas” apontar para mais um caso de má condução protagonizado por um deles pode não constituir grande novidade em termos de descrição dum fenómeno. O que seria interessante seria, por exemplo, trazer à superfície casos de “chapas” que conduzem bem e explicar porque eles são diferentes dos outros. O mesmo vale para prostitutas menores. Mais caso, menos caso de prostituta menor não ajuda a perceber o fenómeno em questão. Cada um deles só confirma o que pensamos saber, nomeadamente que há meninas que se prostituem em idade menor por necessidades existenciais.
Do ponto de vista da compreensão sociológica, contudo, seria interessante procurar por casos desviantes, por exemplo, casos de meninas órfãs em condição existencial difícil, mas que não entram na prostituição. Porque não o fazem? O mesmo vale para os camionistas de longo curso. Aqui também insistimos quase sempre no camionista de longo curso que usa os serviços disponibilizados pelas trabalhadoras do sexo. Sabemos muito pouco sobre o camionista de longo curso que não o faz. Idem para o mineiro e para o passageiro. A insistência no tipo que conhecemos não traz nada de novo. Mas esta insistência é bem típica do discurso da indústria do desenvolvimento que tem a tendência de se limitar ao que pensa que conhece. Desta constatação emerge a terceira máxima do pensamento sociológico:
Confrontado com casos padronizados o sociólogo precisa de procurar por casos desviantes!
Erros analíticos
Tenho vindo a falar de “erros”, mas se calhar o melhor seria falar de “dificuldades” ou “desafios”. “Erro” é um pouco pesado tanto mais que isso pressupõe uma posição privilegiada que eu não detenho. De qualquer maneira, depois de falar dos “erros” da observação gostaria de falar agora das dificuldades que resultam dos nossos esforços de conferir sentido ao que observamos. Talvez seja importante neste momento dizer que a palavra “análise”, etimologicamente, significa decompor um fenómeno e pôr a descoberto as partes que o constituem. Quando analisamos a água, por exemplo, identificamos as moléculas (oxigénio e hidrogénio) que a compõem. Do ponto de vista científico a análise vai mais longe. Não só identificamos as partes constituintes dum fenómeno como também procuramos saber que tipo de relação existe entre elas.
Esta questão é particularmente importante nas ciências sociais, pois nós dependemos muito de conceitos para termos acesso ao nosso objecto. O cientista químico coloca animais (ou partes de animais) no seu microscópio e observa-os. Nós os cientistas sociais dificilmente podemos fazer isso com a “sociedade”. Para termos acesso ao nosso objecto precisamos de o definir operacionalmente. Como podem imaginar, isso é extremamente difícil. Muitos dos conceitos que usamos, por exemplo, são rótulos gerais para coisas muito complexas. Peguemos no conceito “camionista de longo curso” como ilustração. Pois bem, um “camionista de longo curso” não é apenas alguém que conduz viaturas pesadas para o transporte de mercadorias em percursos não inferiores a 500 quilómetros. Ele pode ser homem ou mulher; pode ser desta ou daquela outra etnia; pode ter esta ou aquela nacionalidade; pode ter um certo nível de instrucção; pode ser fiel duma denominação religiosa; pode ter certas preferências políticas; pode ser casado ou solteiro; pode ter esta ou aquela orientação sexual; enfim, há todo um conjunto de características, propriedades e atributos que podem entrar na definição dum “camionista de longo curso”. Todos eles podem fazer uma grande diferença no tipo de relação que estabelecemos entre fenómenos. Por exemplo, quando dizemos que “camionistas de longo curso” preferem praticar relações sexuais sem a devida protecção essa afirmação faz pouco sentido se não prestarmos atenção ao facto de que a probabilidade disso acontecer está ligada talvez ao facto de serem camionistas com esta ou aquela orientação religiosa, esta ou aquela vivência, etc. Os “erros” analíticos estão intrinsicamente ligados à natureza difícil do trabalho com conceitos que caracteriza as ciências sociais (e não só, diga-se de passagem). Nesta apresentação vou apenas abordar dois tipos de “erros” analíticos, nomeadamente erros ligados ao que se chama de falácia ecológica e reducionismo.
a)      Falácia ecológica
A falácia ecológica é bem típica do discurso do quotidiano e costuma infectar também a análise científica. Ela ocorre quando partimos do princípio segundo o qual o indivíduo seria portador das características do grupo a que pertence. No caso do fenómeno da prostituição infantil poderíamos simplesmente partir do princípio segundo o qual toda a trabalhadora do sexo menor, todo o camionista de longo curso, todo o mineiro e todo o passageiro é portador das características que nós atribuímos a cada um desses grupos no nosso relato desse fenómeno. Assim, a trabalhadora de sexo menor sê-lo-ia por razões ligadas à necessidade de sobrevivência; o camionista de longo curso, o mineiro e o passageiro fazem uso dos serviços de prostituição e recusam, por uma questão de princípio, a utilização de preservativo.
Reparem que a lógica de pensamento é a mesma que está presente no uso que fazemos de conceitos como “população”, “polícia moçambicana”, “governo” e até mesmo “docente moçambicano”. Utilizamos esses conceitos como rótulos gerais que nos dizem muito pouco sobre as propriedades individuais que orientam a acção dos indivíduos que fazem parte desses grupos. Quando alguém diz, por exemplo, que a “população” lincha pessoas em reacção à ausência do Estado o que isso quer dizer? É claro que “população” é demasiado geral para ser de utilidade neste caso. Quem são as pessoas que participam nos linchamentos? Que características as definem? Em que circunstâncias é que esses linchamentos acontecem? Em que tipo de lugares? Com isto não queremos negar que a “população” linche pelas razões apontadas; queremos, isso sim, ser mais precisos em relação às condições sob as quais faz sentido dizer que a população lincha em reacção à ausência do Estado. Deste reparo resulta a seguinte máxima sociológica:
O sociólogo deve sempre estar preparado para identificar as condições exactas dentro das quais uma afirmação faz sentido!
b)     Reducionismo
O reducionismo é quase que o oposto da falácia ecológica. Aqui reduzimos processos complexos à acção dum indivíduo. Um caso emblemático é o de Nelson Mandela na África do Sul. Não há dúvidas de que ele teve um papel muito importante para o tipo de transição que houve naquele país. Mas a tendência bastante generalizada de reduzir o sucesso dessa transição à personalidade de Mandela é problemática porque separa o indivíduo e os fenómenos duma história que os constituiu. É o mesmo em relação à figura de Samora Machel no nosso próprio país. Ele foi o que foi em virtude da sua própria individualidade, mas também em virtude dum conjunto de factores acima dele que muito provavelmente fizeram dele aquilo que ele foi. Para entendermos o seu protagonismo nos fenómenos que queremos explicar não o podemos separar do contexto que tornou a sua pessoa possível. Isto não implica negar a grandeza de Mandela ou de Machel.
No estudo de fenómenos como o HIV existe igualmente a tendência de os reduzir à sorte dum único indivíduo. Assim, explicamos o fenómeno particular da prostituição de menores com recurso à personalidade de Albertina Muthisse desligando a pobre rapariga de todo o contexto social, económico, cultural e político que a constituiu como ela hoje é. Deste reparo resulta mais uma máxima sociológica, nomeadamente:
O sociólogo não se contenta em reduzir fenómenos complexos à singularidade dum indivíduo, mas preocupa-se também em recuperar o contexto que tornou esse indivíduo possível!
Erros analíticos costumam ser uma manifestação dum problema lógico ligado ao que se chama de falácia da afirmação do consequente. Nesta falácia apresentamos explicações circulares de fenómenos. Por exemplo, no caso da prostituição de menores se partirmos da tese segundo a qual a entrada de menores na prostituição agravaria os índices de infecção com o HIV não podemos considerar o fenómeno explicado se apenas constatarmos o agravamento do índice de infecções. O raciocínio aí teria simplesmente a seguinte qualidade:
A.    Se menores entram na prostituição os índices de infecção vão se agravar;
B.     Os índices de infecção agravam-se;
C.     Logo, é porque entraram menores nesse negócio.
É visto que este raciocínio é extremamente deficiente. Os índices podem-se dever a outros factores. O nosso raciocínio reafirma simplesmente o nosso palpite. Ora, o que isto exige de nós é a procura incessante de explicações alternativas para o que queremos descrever e analisar para nos precavermos contra explicações simplistas de fenómenos sociais.
Conclusão
Na verdade, o que tentei fazer nesta apresentação foi demonstrar que pensar sociologicamente é ser bom cidadão. O sociólogo Carlos Serra do Centro de Estudos Africanos da Universidade Eduardo Mondlane descreve muito bem as qualidades e virtudes dum bom sociólogo – e por extensão – dum bom cidadão no seu “decálogo do sociólogo” reproduzido no seu excelente livro “Combates pela mentalidade sociológica”. O bom sociólogo é aquele que se relaciona criticamente com a sua sociedade. Não diz que está tudo mal; interpela verdades simples e procura saber como os outros chegaram às conclusões a que chegaram. Pensar sociologicamente é isso mesmo.

PS: Notas de apontamento duma palestra proferida na Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Pedagógica de Moçambique no dia 25 de Julho de 2012 em Maputo.

Saturday, 28 July 2012

Moçambique: a maldição da abundância?

A "maldição da abundância" é a expressão usada para caracterizar os riscos que correm os países pobres onde se descobrem recursos naturais objeto de cobiça internacional. A promessa de abundância é tão convincente que passa a condicionar o padrão de desenvolvimento. Eis os riscos: crescimento do PIB em vez de desenvolvimento social; corrupção generalizada da classe política; aumento em vez de redução da pobreza; polarização crescente entre uma pequena minoria super-rica e uma imensa maioria de indigentes; destruição ambiental e sacrifícios incontáveis às populações onde se encontram os recursos em nome de um "progresso" que estas nunca conhecerão; criação de uma cultura consumista que é praticada apenas por uma pequena minoria urbana mas imposta como ideologia a toda a sociedade. Em suma, os riscos são que, no final do ciclo da orgia dos recursos, o país esteja mais pobre do que no seu início. Estarão os moçambicanos preparados para fugir a esta maldição da abundância?

As sucessivas descobertas de carvão, gás natural, ferro, níquel, talvez petróleo, anunciam um El Dorado. As grandes multinacionais, como a Rio Tinto e a brasileira Vale do Rio Doce, exercem as suas atividades com pouca regulação estatal, celebram contratos que lhes permitem o saque das riquezas moçambicanas com mínimas contribuições para o Orçamento de Estado (em 2010, a contribuição foi de 0,04%), contaminam as águas, violam impunemente os direitos humanos das populações onde existem recursos, procedendo ao seu reassentamento em condições indignas, com o desrespeito dos lugares sagrados e dos ecossistemas que têm organizado a sua vida desde há centenas de anos.

A Vale é hoje um alvo central das organizações ecológicas e de direitos humanos, pela sua arrogância neocolonial e pelas cumplicidades que estabeleceu com o governo: conflitos entre os interesses do país governado pelo Presidente Guebuza e os interesses das empresas do empresário Guebuza, de que podem resultar graves violações dos direitos humanos, como aconteceu quando o ativista ambiental Jeremias Vunjane, que ia à Conferência da ONU, Rio+20, denunciar os atropelos da Vale, foi arbitrariamente impedido de entrar no Brasil e deportado, ou quando às organizações de direitos humanos é exigida uma autorização do governo para visitar as populações reassentadas, como se estas vivessem sob alçada de um agente soberano estrangeiro.

Há indícios de que os recursos começam a corromper a classe política e que o conflito no seio desta é entre os que "já comeram" e os que "querem também comer". Não é de esperar que, nestas condições, os moçambicanos, no seu conjunto, venham a beneficiar desses recursos. Pode estar em curso a angolanização de Moçambique. Não será um processo linear, porque Moçambique é muito diferente de Angola: a liberdade de imprensa é incomparavelmente superior; a sociedade civil está mais organizada; os novos-ricos têm medo da ostentação, porque ela é zurzida na imprensa; o sistema judicial é mais independente; há uma massa crítica de académicos credenciados para fazer análises sérias, mostrando que "o rei vai nu".

Por outro lado, o impulso para a transição democrática parece estancado. A legitimidade revolucionária da Frelimo sobrepõe-se cada vez mais à sua legitimidade democrática, com a agravante de estar agora a ser usada para fins bem pouco revolucionários; a partidarização do aparelho de Estado aumenta em vez de diminuir; a vigilância sobre a sociedade civil aperta-se sempre que se suspeita de dissidência; mesmo dentro da Frelimo, a discussão política é vista como distração ante os benefícios indiscutidos e indiscutíveis do "desenvolvimento". Um autoritarismo insidioso, disfarçado de empreendedorismo e de aversão à política ("não te metas em problemas"), germina na sociedade como erva daninha.

Ao partir de Moçambique, uma frase de Eduardo White cravou-se em mim: "Nós que não mudamos de medo por termos medo de o mudar". Uma frase talvez tão válida para a sociedade moçambicana como para a sociedade portuguesa e tantas outras acorrentadas às regras de um capitalismo global sem regras.
http://visao.sapo.pt/mocambique-a-maldicao-da-abundancia=f677317

Sunday, 17 June 2012

PRIMEIRA CONFERÊNCIA NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO MOÇAMBICANA DE SOCIOLOGIA

7 e 8 de NOVEMBRO 2012, MAPUTO

MENSAGEM DO PRESIDENTE

Uma das principais apostas da Associação Moçambicana de Sociologia (A.M.S), desde a sua fundação, continua a ser a consolidação da sua institucionalização enquanto entidade representativa da nossa categoria profissional e disciplinar. A A.M.S com muita dificuldade, mas com maior vontade, tem levado a cabo actividades diversas com intuito de trazer a família da sociologia Moçambicana a reflectir sobre o seu percurso, e desafios do futuro. A A.M.S já realizou várias iniciativas académicas tais como, palestras, aulas públicas e seminários.

Este ano a A.M.S pretende realizar a sua primeira conferência nacional. A primeira conferência nacional, como o próprio nome sugere, será o primeiro evento nacional que congregará estudantes, docentes, investigadores e o público em geral para discutir o estado de arte da sociologia em Moçambique.  

O alcance das acções da A.M.S passam pela implementação, num trabalho continuado, de novas ideias, acompanhadas por um forte investimento na sua realização, necessária para a consolidação da nossa identidade disciplinar e profissional. A criação da Revista Moçambicana de Sociologia (RMS), do prémio “Mentalidade Sociológica”, para o melhor trabalho de dissertação em sociologia, a institucionalização das aulas públicas, o lançamento do Boletim de Sociologia, a criação do web site e de uma base de dados dos sociólogos em Moçambique e de suas teses e dissertações, para citar alguns projectos, constituem o desiderato da actual direcção da A.M.S.

A A.M.S pugna por uma constante comunicação com os diversos parceiros, através dos limitados meios de que dispõe. O trabalho que a A.M.S desenvolve é feito por voluntários que não tem recebido nenhum tipo de gratificação a não ser a satisfação de contribuir para o desenvolvimento da sociologia em Moçambique. Neste trabalho voluntário que a A.M.S tem levado a cabo deparamos com muitos que nos encorajam, e poucos que fazem. Com muitos que criticam, e poucos que ajudam. Com muitos que exigem e poucos que contribuem. Enfim, estas adversidades demostram o estágio actual do associativismo na nossa actividade. Não obstante, estamos convencidos da nobreza da causa que abraçamos e por isso continuamos firmes na nossa missão.

Com as acções que desenvolvemos, esperamos dar o nosso contributo nos desafios para o desenvolvimento da sociologia em Moçambique. Junte-se a nós, inscreva-se na A.M.S e participe da primeira conferência nacional de sociologia.

Prof Doutor Patrício Vitornino Langa




Thursday, 27 October 2011

Por uma sociologia sem fronteiras_Texto & Fotos


O Prof. Luis de Brito, investigador do IESE, proferiu no dia 12 de Outubro, a Primeira Aula Pública de Sociologia, na Faculdade de Medicina, dissertando sobre o tema “Por uma Sociologia sem Fronteiras” (pdf). Estiveram presentes neste evento, organizado pela Associação Moçambicana de Sociologia, académicos, estudantes, membros associados e convidados. (veja as fotos)

Friday, 14 October 2011

AGRADECIMENTO

Prezados membros e simpatizantes da A.M.S
A direcção da A.M.S vem por este meio agradecer a vossa presença, maciça, na Primeira Aula Pública de Sociologia (A.P.S), e na cerimónia de homenagem ao Professor Luís de Brito, que decorreu na Sala Magna da Faculdade de Medicina da Universidade Eduardo Mondlane no do 12 de Outubro de 2011 das 14 as 17h. A vossa presença foi digna do nosso maior apreço e contribui de forma incomensurável para o sucesso do evento. Como podereis imaginar, preparar um evento daquela envergadura requereu um esforço logístico titânico.
Gostaríamos de aproveitar esta ocasião para exortar aos membros e simpatizantes a regularizarem as suas quotas. Poderão fazê-lo através da conta da A.M.S no BCI: 30482930. Informamos também que a versão escrita e revista da aula será publicada em forma de livro para a sua disseminação. Os membros com quotas regularizadas terão acesso ao livro com um preço bonificado.
A A.M.S através da sua direcção tem estado a receber cumprimentos, elogios e até sugestões de várias individualidades pela iniciativa. Sentimo-nos bastante lisonjeados e encorajados pelo gesto. Gostaríamos, entretanto, de sugerir que aquelas pessoas que ainda estiverem interessadas em fazer algum tipo de comentário, sugestão, crítica e ou elogio o façam através do seguinte endereço, sociologia.mocambicana@gmail.com.
 Se acharem que o  comentário pode ser partilhado por todos então poderão solicitar a sua publicação no blog da A.M.S, sociologia-mocambicana.blogspot.com
Melhores cumprimentos,
A Direcção da A.M.S





Tuesday, 4 October 2011

Primeira Aula Pública de Sociologia da A.M.S

Breve Nota Explicativa da APS
Por Uma Sociologia Sem Fronteiras é o título da primeira aula pública de sociologia A.P.S﴿, da Associação Moçambicana de Sociologia A.M.S﴿, a ser proferida pelo Prof. Luís de Brito, no dia 12 de Outubro de 2011, na Faculdade de Medicina da Universidade Eduardo Mondlane. A direcção da A.M.S tem a honra e o prazer de convidar a comunidade de sociólogos, de/em Moçambique, académicos das diversas áreas disciplinares, políticos, a sociedade civil, e o publico em geral a participar desde evento inédito e singular na incipiente historia da sociologia no país. Jamais nos anais da história da sociologia em Moçambique teve lugar um evento análogo. Por esta razão, este momento carrega consigo um significado especial e singular para a A.M.S.
 O que é a A.P.S da A.M.S?
A APS é uma iniciativa da direcção máxima da A.M.S que procura reconhecer e distinguir publicamente individualidades e/ou entidades nacionais e/ou estrangeiras que se tenham destacado ao contribuir para o desenvolvimento da sociologia. A ideia principal é convidar um académico de reconhecido mérito na sociologia ou áreas afins à partilhar a sua formulação sociológica de um problema específico da disciplina ou identificado em torno de um tema. A aula pública, portanto, vai ser um evento público onde o orador convidado aborda os aspectos centrais da sua investigação sobre determinado assunto. Por norma, será dada preferência à sociólogos moçambicanos como forma de divulgar sua pesquisa e ideias à um público mais alargado.
Quem é Luís de Brito?                  
Conhecido pelos seus alunos simplesmente por professor Luís de Brito, Luís Manuel Cerqueira de Brito nasceu em Moçambique e concluiu seu bacharelato em História na Universidade Eduardo Mondlane, Maputo, em 1976. Neste mesmo ano, iniciou sua carreira académica integrando a equipe de pesquisadores que criou o Centro de Estudos Africanos da Universidade Eduardo Mondlane. Simultaneamente à pesquisa, especializou-se em Estudos de Desenvolvimento no Centro de Estudos Africanos, obtendo seu diploma em 1981. No ano de 1992, concluiu seu PhD na Université de Paris VIII. Actualmente é pesquisador permanente do Instituto de Estudos Sociais e Económicos (IESE) de Moçambique. Para saber mais sobre o nosso orador siga a seguinte hiperligação,

Primeira Aula Pública de Sociologia da A.M.S 12/10/21011

Wednesday, 21 September 2011

Primeira Aula Pública de Sociologia da A.M.S: Brevemente!

A Associação Moçambicana de Sociologia (A.M.S.) vem por este meio convidá-la/o a tomar parte da primeira Aula Pública de Sociologia. A APS é uma iniciativa da direcção máxima da AMS que procura reconhecer e distinguir publicamente individualidades e/ou entidades nacionais e/ou estrangeiras que se tenham destacado ao contribuir para o desenvolvimento da sociologia.

Este ano a A.P.S. será proferida pelo Prof. Doutor Luís de Brito, membro da A.M.S., e Professor Associado da Faculdade de Letras da Universidade Eduardo Mondlane (U.E.M.). A APS versará sobre o tema: “Por Uma Sociologia sem Fronteiras” e terá lugar no dia 12 de Outubro de 2011 na Faculdade de Medicina da U.E.M. no período compreendido entre as 14h e 17h, aproveitando-se a data para homenagear a todos os professores do país, e em particular os do Ensino Superior.